02/09/2015

Entrevista com Renato Follador explica riscos da retirada integral na hora da aposentadoria.

Para quem está prestes a se aposentar, olhar o saldo de contas pode significar a tentação de resgatar o valor integralmente sonhando em viver de renda. Para evitar decisões precipitadas e que gerem surpresas desagradáveis – e irreversíveis – no futuro, entrevistamos Renato Follador. Atual presidente do Fundo Paraná Previdência Multipatrocinada, ele é consultor em previdência, atua há 30 anos no mercado e mantém uma coluna da rádio CBN.

1 – Qual o principal risco do participante que solicita o resgate em detrimento da aposentadoria programada? Essa decisão é trocar o certo pelo duvidoso?
De todas as opções que o participante tem na hora de requerer seu benefício, a pior é o resgate. Primeiro, porque o Imposto de Renda incide de uma vez sobre um patrimônio. Segundo, é necessário conhecer o mercado para investir. Eu, que trabalho há 30 anos na previdência privada, me considero incompetente para gerir meu patrimônio previdenciário. Existe um conceito chamado custo de oportunidade, que é o que você deixa de ganhar porque não fez um investimento melhor. Para alguém de fora do mercado financeiro, é impossível conhecer toda a variedade de produtos oferecidos, quais os melhores rendimentos de negócios que oferecem o mesmo risco, conhecer todos os produtos geridos e acompanhar a macroeconomia. Por isso, o projeto de longo prazo tem que ser gerido por especialista.

Uma prova disso é que a grande maioria dos que resgatam com objetivo de abrir seu próprio negócio fecham as portas em até dois anos. Já na aposentadoria, o risco de longevidade é da entidade. [Você não precisa calcular durante quanto tempo o seu dinheiro precisa durar: é a instituição que deve pagar, mensalmente, sua aposentadoria até o final da sua vida.]

2 – O resgate não vai contra a lógica da previdência que é garantir a tranquilidade através de uma renda mensal?
Exatamente. O que a gente compra quando adere a um plano de previdência é a tranquilidade. Quando o participante opta por resgatar, acaba trazendo para si um trabalho que normalmente não tem competência para realizar.

Além do risco do investimento (que pode ou não dar certo), ele assume também o risco do gasto, pois, com todo recurso disponível de uma só vez, ele perde a noção de distribuição do dinheiro no tempo e tende a ter um consumo maior, comprometendo seu futuro.

3 – Quando o aposentado resgata e investe por conta própria, deve pagar taxas administrativas às corretoras, além de precisar deduzir esses rendimentos no imposto de renda. Só essas duas despesas já aumentam a necessidade do aposentado ter maiores retornos que compensem o pagamento dessas custas?
Quando você investe, mesmo em títulos públicos, tem que pagar imposto sobre os rendimentos, o que aumenta o valor do Leão. No plano de previdência, a taxa administrativa ainda é menor, pois, como são várias pessoas investindo, há um ganho de escala. O mesmo acontece com a rentabilidade, que é maior do que se a pessoa investisse sozinha.

4 – Algumas matérias ensinam ao participante como ele pode viver dos rendimentos das aplicações financeiras depois de ter juntado R$ 1 milhão. Qual o perigo, para as pessoas que desconhecem o mercado financeiro, de levarem esse projeto adiante?
Ou você administra os recursos com profissionalismo ou faz de forma amadora, o que vai interferir na qualidade do resultado e trará perdas financeiras.

5 – A instabilidade gerada pela incerteza dos ganhos pode influenciar negativamente a qualidade de vida do aposentado, já que ele perde a segurança da renda vitalícia?
Certamente. Uma pessoa que não conhece o mercado financeiro não está psicologicamente preparada para as oscilações dos investimentos nem para o que chamamos de realizar prejuízo, que é quando você vende a ação nos momentos de baixa,enquanto a lógica é comprar na baixa e vender na alta.

“O RESGATE É A PIOR OPÇÃO PARA O PARTICIPANTE”